11.11.12

Feliz Aniversário

Hoje é seu aniversário. Ou era, sei lá. Todo ano, nessa data, lembro-me do quanto você ficou chateada aquele ano no qual eu não liguei para dar os parabéns. Será que a essa altura você já teria percebido que eu não gosto mesmo desse negócio de ligar só por causa do aniversário? Talvez eu tivesse deixado de ligar uma ou duas vezes novamente, ou talvez não. É, talvez não. Você ficou tão chateada com aquela ligação não-efetuada, e olha que eu nem havia esquecido. Pra mim aniversário é isso. Se você sabe a data de coração, se lembra-se da pessoa ao se dar conta que aquele dia é o aniversário dela, basta. O problema é que na maior parte do tempo, eu nem sei que dia é. Mas sei que dia é hoje. E hoje é seu aniversário.
Eu com certeza teria ligado. Pra te dar os parabéns que você tanto prezava. E perguntar como andavam as coisas. Você reclamaria da minha irmã, que estaria mais impossível do que nunca. Se orgulharia do meu irmão, seu único filho homem. Ou de repente, talvez eu nem precisasse ligar. Vai que você estivesse morando por aqui, ou eu estivesse morando por aí? São seis anos, afinal. Em seis anos, muita coisa poderia ter mudado. Muita coisa mudou.
Eu sou mãe agora. Tenho um filho lindo, que você nunca conheceu. Sabe, ele vive perguntando de você. Tem uma tia na escola com o nome igual ao seu, e ele cisma que você não morreu, que você está viva na escolinha dele. Aliás, ele ainda não entende o que é morrer, pergunta sempre. É difícil entender o que é morte quando ainda não se compreende o conceito de vida. Eu expliquei que havia sido um caminhão, e ele se sentiu tão traído, tadinho. Ele adora caminhões e reconhece suas ramificações: caminhão-pipa, caminhão-cegonha, caminhão de lixo, caminhão-caçamba. Quis saber qual havia te matado, e eu não soube dizer.
Ele me perguntou também onde você estava. Afinal, para onde vão as pessoas quando morrem? Eu disse que você ainda estava no coração e na cabeça das pessoas que te amam. E no fim das contas, é isso mesmo. Você ainda está aqui. Então ele concluiu que o caminhão não te amava. E me abraçou apertado, sem perguntar mais nada, quando deu a conversa por encerrada. Ele é muito especial.
Feliz aniversário, mãe.

3 comentários:

Wesley Barbosa 11 de novembro de 2012 00:52  

Triste e bonito, mais bonito que triste.

Adorei a forma que escreveu.

Érika Zemuner 11 de novembro de 2012 01:05  

Que bom que voltou a postar, Nanda. Sou fã incondicional dos seus textos (até quando você falava de fraldas, papinhas e coisas que só você me faz ler).
Mas esse texto é especial, eu sei disso. É o tipo de coisa que a gente só escreve quando esse vazio chato que insiste e permanecer e doer não cabe mais na gente. Imagino o quanto você gostaria que sua mãe visse você agora, também mãe.
E foi lindo como você lidou com a dúvida do Benjamin. Porque no fim é assim mesmo, a simplicidade das lembranças. Não há nada maior que isso.

Anderson Santos 11 de novembro de 2012 11:10  

Ia comentar ontem, mas não consegui. É estranho olhar para trás e ver que faz tanto tempo. Quer dizer, tanto tempo para quem não viveu aquilo, imagino que o Benjamin acabe as fazendo mais próximas - mesmo que nós não acreditemos em certas coisas rs.

Acho que nunca tinha relembrado daquele dia. Da mesma forma que o Renato, senti bastante, só à noite, em casa, que pude pensar ou demonstrar qualquer reação mais emocional. Além de tudo por não saber se poderia ajudar de alguma forma. Quando vc voltou, lembro da minha preocupação em saber o que fazer até que vc, no seu jeito de "sempre" ter dito algo como: "agora até quem não falava comigo, vai querer demonstrar algo. Odeio isso". Pronto, era sinal que devíamos seguir em frente.

Pais sempre são, bons ou maus, modelos para nós. Acho que o relacionamento com a tua mãe a fez ser a "super-mãe" que você se tornou, independentemente de ser uma cópia ou o inverso do modelo. Isso deixa todos os teus amigxs orgulhosos, tenha certeza.