25.9.09

Às vias de parto

Eu sempre fui considerada xiita, radical, sectária, ultra, dentre outras denominações para um extremismo que permeia (quase) todos os meus pontos de vista. Politicamente falando, gastronomicamente falando, porque seria diferente maternalmente falando? Minha opinião sobre isso tudo foi lindamente colocada pela Kalu, lá do Mamíferas, quando ela dissertou sobre a diferença entre ser mãe e ter um filho.

Só que ela fala para um público amplo, ela sabe usar as palavras, e ela provavelmente não tem a mesma opinião sobre o que eu falarei a seguir, porque fui taxada de xiita e extremista até dentre os xiitas e extremistas do parto humanizado quando eu sugeri isso. Eu sou imatura, tenho a língua maior do que a boca, mas dessa vez não quero ofender ninguém com o que vou escrever. É uma opinião embrionária, que pode e vai ser moldada a medida que eu for aprendendo. Mas é a minha opinião no momento, e para complementar o post passado, preciso expô-la.

No Brasil, o aborto é ilegal. Apesar de ser um país laico, sua sociedade é composta majoritariamente por católicos, que, por sua vez, são majoritariamente hipócritas, que adoram um comercial de cerveja com mulheres de biquini, mas censuram a velhinha que fala de sexo, blablabla, não é sobre isso que eu quero falar.

No Brasil, o aborto é ilegal mas a cesariana eletiva é comum e incentivada. Eu não crucifico todas as mulheres que optam pela cesariana. Existem casos de pessoas próximas, minha mãe é um exemplo, que agendaram uma cesariana assim que receberam o resultado da amniocentese indicando que o bebê tinha má-formações que impediriam qualquer chance de vida extra-uterina. Existem casos de pessoas que agendam uma cesariana porque não têm o esclarecimento necessário, não têm acesso a informações diferentes daquelas passadas por suas avós, que a pior dor do mundo é a dor do parto.

Mas também existem casos de pessoas muito bem esclarecidas que optam por uma cesariana porque é mais "fácil". Porque "dói menos". Porque "vai nascer no dia do aniversário da minha finada calopsita , que deus a tenha". E a essas eu não concedo meu perdão, como se fizesse alguma diferença. Porque com o advento da internet, a maioria das grávidas frequenta os mesmos espaços - fóruns, comunidades, listas de discussão. Esses espaços estão povoados pelas defensoras do parto humanizado, sempre prontas a esclarecer dúvidas, mesmo as de quem não as solicitou, porque cada grávida traz em si a possibilidade de uma pequena ruptura no modo de nascer no Brasil. Então é muito difícil ser grávida hoje em dia e não ter acesso às informações necessárias para mudar concepções engessadas sobre o parto normal.

A partir do momento em que se opta por manter uma gestação em detrimento do aborto (que é ilegal mas existe, e você provavelmente conhece alguém que já fez), garante-se àquele feto o direito de compartilhar do seu corpo, desenvolver-se e existir enquanto ser humano. A partir desse momento, você resigna-se com a condição de grávida, ou abraça esse fato. Você tem um filho, ou você é mãe.

E para mim é incongruente ser mãe e optar por uma cesárea com data marcada. É um cerceamento do direito do ser humano que você permitiu que viesse a ser humano. É uma interrupção da gestação, tal como o aborto, com a exceção de que o feto sobreviverá a essa violência. Aceitar a gestação implica aceitar a ela toda, começo, meio e final. Não é o médico quem decide isso. Não é a mãe. O final é o parto normal, no momento em que o feto estiver pronto para tornar-se um bebê.

Uma cesárea eletiva sem indicação é mais criminosa do que um aborto. O aborto diz respeito ao corpo da mãe, que não permite que o embrião se desenvolva. A cesárea eletiva diz respeito ao corpo de ambos, mas principalmente ao direito daquele feto-bebê que já entra no mundo sendo empurrado, obrigado.

Vendo o vídeo do nascimento de Benjamin, eu fico horrorizada ao me ver naquele estado, mas fico muito mais horrorizada de ver o tratamento dispensado à ele. Ele foi tirado, virado, aspirado, pesado, medido, esfregado, tudo isso segundos após ter sido retirado do melhor lugar do mundo, ao qual ele jamais voltará. No centro cirúrgico, o condicionador de ar trabalha a todo vapor, pois a temperatura gelada ajuda a manter um ambiente estéril. Benjamin saiu da minha barriga que estava a 37ºC para ficar pelado em cima de uma mesa, chorando a plenos pulmões, longe da única pessoa que ele conhecia, pois estava dopada, sendo costurada em outra sala, e sequer pôde segurá-lo. E isso porque eu ainda entrei em trabalho de parto, ainda esperei Benjamin me dizer que estava pronto para vir, apesar dele ter vindo um pouco devagar demais para o limite do médico.

Se isso que foi feito com ele não é uma violência, eu sinceramente não sei o que é. E se você vai permitir, aliás, se você vai escolher que isso seja feito com seu filho, mantenhamos distância, não troquemos números de telefone nem endereços de e-mail.

Acho que pela primeira vez na minha vida, não quero insultar a ninguém com esse texto. Se lhe atingiu diretamente e você quer debater, ok, comentaí. Mas vou ernestogeizelar todo comentário que faltar com o respeito, porque esse blog é para Benjamin, apesar de ter fugido um pouco do propósito nesses últimos dois posts. No próximo retornaremos com a programação normal.

9 comentários:

Anninha 25 de setembro de 2009 11:15  

Nanda, ultimamente estamos em sintonia de pensamentos, viu? Ontem mesmo estava conversando com algumas pessoas e dizendo que há uma grande diferença entre ter um filho e ser mãe. Uma coisa não é consequencia natural da outra. Vou ler o Mamíferas correndo!! =)

Ah, e concordo com você em todos os pontos do texto. T-O-D-O-S!

Beijocas!

Anderson Santos 25 de setembro de 2009 15:03  

Ainda lembro as discussões com o Josias e tenho (quase) certeza absoluta que quando soube da sua gravidez e que vc teria o Benjamin ele deve ter pensado "pq ela não aborta agora?".

Enfim, realmente tenho minhas dúvidas se abortar é a mesma coisa que ter um parto (por opção) por cesárea. Afinal, é um conflito (para as duas coisas) em ser algo natural e ter o direito de livre escolha, que em ambos não ocorrem em sua maioria de forma consciente.

Porém, socialmente é melhor um aborto que um filho que vai ser mal visto, rejeitado ou que simplesmente a família não terá condições de manter. E biologicamente é melhor o parto natural, a recuperação da mãe é bem mais rápida e desde os primórdios foi assim - desde que a saúde e a posição do bebê permitam.

Nanda 25 de setembro de 2009 15:28  

Andinho, mas eu não estou falando de cesárea em casos necessários. Estou falando daquelas cesáreas que são marcadas junto com a primeira consulta do pré-natal...

Quanto a ser igual a aborto, tentei explicar no texto. Um aborto é honesto, é uma forma de dizer que não aceita aquele corpo estranho, não quer que ele se desenvolva e nem pretende ser responsável por ele, uma cesárea agendada é hipócrita, é a mulher tentando se livrar de uma responsabilidade que há muito aceitou. Quando no momento do aborto, o corpo ainda é só da mulher, a decisão cabe a ela, ela pode optar. Uma cesárea já diz respeito a ambos, pois ela deixou que aquele feto-bebê viesse a ser. Entende?

Anderson Santos 25 de setembro de 2009 18:10  

Entendo. Mas o que quis dizer é que se a mulher optar por uma cesariana de livre consciência, mesmo que por um motivo banal, é um direito dela. Ela que fará uma cirurgia (com seus riscos), passará dois ou três dias internada e demais coisas.

Lógico que falar em "consciência" é complicado na atual situação sócio-histórica. Muito menos em uam fonte médica que apresente todas as opções.

Soraya 26 de setembro de 2009 02:35  

Vou me meter um pouco...
Acho que o que faltou no texto pra esclarecer mais sua posição com a questão aborto=cesaeletiva... e o ponto principal que confundiu um pouco a interpretação do Anderson... foi colocar que a cesarea eletiva não vai gerar desconforto exclusivamente a mãe e o bebe "ficará bem graças a Deus" (interna e nanda vai entender uhahuahua)A cesarea eletiva gera VARIOS e COMPROVADOS problemas ao bebe... respiratórios, emocionais, infecciosos e etc...
Eu pessoalmente concordo com a Nanda...
Sempre falo em tom de brincadeira e tudo mais minha opinião é e sempre será que o bebe vai sair por onde entrou... se é que me entendem...
Tirando casos de proveta huauhauhauha não da pra nascer da seringa...
Eu ainda não entendi pq será que esse post ainda não bomboou aqui no seu blog? jiajajia #tabusfail

Cristiane Iannacconi 26 de setembro de 2009 16:55  

oi, Nanda,
que bom que gostou do CicliCCa. Apoio totalmente vc fazer uma festa sustentável para o seu baby. A festa de um ano do Ian foi assim e fez o maior sucesso. Sobre as bolas de pet você pode entrar em contato com a Valéria L. Lopes (vallamartine@yahoo.com.br). Já os bonecos de plástico quem ensina é a Ana Velho lá no Galpão das Artes Urbanas na Gávea.Veja o link lá mesmo no CicliCCa. Se tiver alguma dúvida é só falar.
Bj,
Cris

Luciana 27 de setembro de 2009 20:14  

Minha tendencia é sempre achar que cada um tem o direito de fazer suas proprias escolhas, o que a principio incluiria tambem a cesaria eletiva (por mais abominavel que seja).

Mas acho que vc tem um ponto aí, Nanda. No caso da cesaria eletiva, a mulher (ser pensante, com todas as infomacoes à sua disposicao e que optou por ser MÃE) nao deveria ter o direito de simplesmente OPTAR à revelia por um procedimento violento ao proprio filho (que eh um ser à parte e precisa ser respeitado como tal).

Concordo contigo.

Bianca 30 de setembro de 2009 20:13  

Que maravilhoso o texto...
Curou um pouco da minha angústia pelo fato de a Laura ter nascido de cesárea (sofrimento fetal, sem movimentar a 12 horas e com desacelerações importantes do BCF). Hoje sei que foi o melhor para ela. Mas me pergunto todo dia se ela escolheria aquele dia para nascer.

Kalu 29 de outubro de 2009 16:54  

Anmda,

Texto sensacional. Concordo em gênero, número e grau. Acontece que existir informação é diferente de ser pensante. Os médicos, a grande imprensa vendem a idéia da cesárea diariamnete e nossos blogs só são lidos por quem já sente desejo pelo parto natural ou por quem quer xingar para esconder as próprias feridas. Escrevi o texto que quem escolhe cesárea eletiva só pode sermaluca. E é! Tem muita mulher que quer parto normal e é levada a fazer cesárea pelos motivos mais banais (tem até uma pesquisa da fiocruz sobre isso). O fato é que a grande maioria está tão informada (dentro da forma) da sociedade que seria preciso desinformar (tirar da forma, remover os mitos) para depois oferecer as soluções. E continuamos na luta, companheira!