21.9.09

A dor do não-parto

PS1: Esse post foge um pouco da proposta do blog: não é engraçado e não é - ao menos não diretamente - sobre o Benjamin.
PS2: O relato foi escrito no 1º mesversário de Benjamin, está aí na íntegra. Só editei pra tirar o nome do médico e do plano de saúde, porque gato escaldado tem medo de processo. Um pouco desatualizado: se antes eu não tinha certeza da desnecesárea, hoje eu sou convicta e indignada.

Tem duas coisas que eu preciso tirar do peito, e vou usar o blog como espaço pra isso, pessoa pública que sou. A primeira tem a ver com o relato do nascimento de Ben, que eu disponibilizei pra download porque ele foi escrito pela verborrágica incurável que vos fala, então ninguém vai ser obrigado a rolar incansavelmente o mouse até chegar na parte que interessa. Que vem agora:

Quando eu me descobri grávida, eu estava de passagem marcada pra Inglaterra. Havia ganho uma bolsa para estudar um semestre em uma universidade de lá, oportunidade pela qual eu vinha lutando há um ano, e para a qual havia uma cláusula enorme de "nenhum problema de saúde, incluindo gravidez" no contrato. Sim, sempre quis ser mãe, mas também tinha uma vida tão planejada quanto uma cozinha Bertolini, e uma gravidez inesperada que botasse um ponto final nos meus planos imediatos foi um baque e tanto.

Por isso, após a confirmação da gravidez, eu entrei em uma espiral descendente, cheguei ao fundo do poço mesmo, não comia, não saía do quarto, sequer me levantava da cama para abrir a varanda ou tomar um banho. Devo ter passado uns 3 dias seguidos sem ver a luz do sol, e só não foram mais porque meu cavaleiro de armadura vinha diariamente num ônibus branco me visitar e tentar me resgatar desse buraco. Acho que Victor não sabe o quanto eu devo a ele.

Eu sou a favor do aborto, e essa é a segunda coisa que eu quero tirar do meu peito, mas isso virá em outro post, porque eu ainda nem terminei a primeira. Eu sou a favor, mas não faria, porque apesar de ser desempregada, desestagiada e sequer ter disciplina pra fazer meu TCC enquanto o menino dorme (em vez de vir postar no blog), tenho uma família que me dá suporte financeiro, tenho um namorado que É meu suporte emocional e eu poderia ter esse bebê. Foi um vacilo sim, mas eu teria condições de arcar com as consequências desse vacilo, e assim o fiz.

Pra poder me despir um pouco menos dolorosamente de sonhos britânicos e casas pré-fabricadas, precisava mergulhar de cabeça em outra coisa, outro universo, então ao aceitar minha gravidez, foi nesse mundo que me meti. Sempre soube que queria "ter filho de parto normal", mas não sabia das miríades que existem nas formas de "ter filho", e aos poucos fui descobrindo que, na verdade, eu queria era parir. E foi essa vontade que me fez levantar da cama, abrir a varanda, tomar um banho e aprender sobre gravidez e parto. Era meu único interesse. Pra poder parir, eu teria que estar ciente de todas as informações possíveis, fui atrás.

Pra quem lê esse blog e não tem contato com essa coisa de parto, soa como frescura fazer tanta questão pela via de nascimento. Bem, não é. Uma breve visita nos sites linkados ali ao lado e vai dar pra entender. Infelizmente, não é tão fácil parir quanto obter informações sobre parir, e eu me vi às 36 semanas de gravidez correndo atrás de um médico que me passasse confiança.

E mesmo depois de ter telefonado para todo o guia médico do plano de saúde, de ter passado por um médico que me disse que eu não tinha "bacia pra parir", de outra médica que fez inúmeros exames bacteriais apesar de ter dito que não me acompanharia dependendo a duração do meu trabalho de parto, de conseguir uma consulta com o médico mais disputado, mais humanizado, mais bem cotado de Maceió, eu não pari.

E sim, sou imensamente frustrada por não ter parido. É, para mim, um motivo de muita dor emocional - e física - ter lutado tanto pra "morrer na praia". Então eu fico putadavida quando leio que fulana agendou uma "cesárea de emergência" pra daqui a dois dias. Gente, se é emergência, tem que tirar o bebê na hora! Não é amanhã, não é de noite, é agora! É pra isso que a cesárea serve.

Mais putadavida ainda eu fico quando leio que beltrana está em pródromos, com mais dilatação que eu tive depois de 30 horas de trabalho de parto, e está nervosa não porque em breve terá a cria nos braços, mas porque a cesárea só está agendada para o fim da semana! Isso me ofende de forma direta, mesmo se beltrana nem souber da missa a metade, porque eu ainda não adquiri o dom de andar pelo caminho do meio.

Sou passional até o último fio de cabelo (e não tá muito longe disso), então se meu vínculo com fulana e beltrana sustentar-se na tríade gravidez-parto-maternagem e houver uma dissidência radical em algum desses axiomas, eu me reservo o direito de cortar esse vínculo tal qual o médico cortará as sete camadas de pele, o cordão umbilical, o prepúcio do filho e sabe-se lá aonde isso vai parar.

Prefiro cercar-me de pessoas que não violentam seu filhos (e cesárea eletiva é uma forma de violência), que possam acrescentar idéias e aceitem sugestões que integrem-se ao modo como eu vejo a supracitada tríade. E se a forma como eu me expresso ao cortar esse vínculo magoa, culpa do meu superego inexistente. Vão procurá-lo por aí, dêem uma bronca, e por favor, sumam de novo com ele.

10 comentários:

Anderson Santos 21 de setembro de 2009 17:49  

Se fosse não tivesse pânico de rádio, TVs e coisas assim, sugerira o seu nome para defender o parto normal aqui na Difusora. Afinal, vc virou uma especialista no assunto gravidez e virará uma em "ter filhos" - isso só se sabe quando o rebento der seus primeiros passos para a liberdade.

Anninha 21 de setembro de 2009 18:17  

Querida, abraços solidários. Confesso que não sei o que falar; tu sabes de todos os meus medos. E o principal deles é ter que passar pela dor do não parto...

Érika Zemuner 21 de setembro de 2009 18:30  

Uma das coisas que eu sempre admirei em você é essa sua capacidade de se jogar de cabeça nas coisas, de não deixar nada pela metade, ir atrás de informação e saber do que está falando e, principalmente, vivendo.


Baixei seu trelato, li e ainda vou passar pra minha irmã que, como eu já cheguei a mencionar, ama esses assuntos e pretende se especializar em obstetrícia.

Shuellen 21 de setembro de 2009 20:51  

Nanda, chorei muito lendo seu relato de parto. Não consigo tirar da minha memória a imagem de quando cheguei no quarto do hospital que você estava chegando da sala de cirurgia, e meu desespero por não ter como te consolar.O pouco que aprendi sobre partos, gravidez e crianças no periodo da sua gestação, me faziam saber que dor aquilo deveria estar te causando.
Acho que nem preciso dizer o quanto te admiro. Sempre soube que por trás destes cachinhos meigos e roupas rosas havia uma mulher forte, capaz de encarar as mais diversas facetas da vida.

Te amo e te admiro muito.

Aline Tavares 21 de setembro de 2009 21:28  

Quando engravidei (e antes também), entrei de cabeça nesse mundo em que vivemos atualmente (a humanização, o lado de fora da Matrix).
Me considero radical nas minhas opiniões sobre parto, principalmente. Penso muitas das coisas que vejo o pessoal reclamar e classificar como "xiita".
Mas, por vergonha (não das minhas opiniões, mas de falar em público) e auto-preservação, não costumo falar sobre isso como você.
Muito corajoso da sua parte falar o que vem a cabeça sobre as cesáreas eletivas alheias. Mas, Nanda, tem gente que realmente não acha que isso seja tão importante.
Tem gente que só quer querer, gente para quem "tanto faz" e gente que não quer parir mesmo. Seja lá por quais razões. E é foda, mas a gente não pode querer pelos outros.
Eu fico triste, fico com raiva. Mas cada um sabe o que é importante para si.
Eu procuro não impor as minhas verdades, porque é chato, enfraquece o movimento. Deixa quieto.
Eu só falo alguma coisa mesmo, quando acho que tem abertura. Se não tiver, no máximo deixo a pessoa com a pulga atrás da orelha.
Do mesmo jeito que irrita a gente ouvir o "outro lado" dizer que a gente é louca, irresponsável, romântica e seja lá quais os adjetivos concedidos, eles se ofendem quando a gente diz que é uma violência, uma irresponsabilidade, etc e tal, fazer uma cesa eletiva.
Então, querida, procure não se estressar. A gente só pode lamentar por quem não quer sair da Matrix, mas não pode puxa-las a força para cá. ;)

Ps.: As pintinhas de Bruno foram diagnosticadas como "eritrema polimorfo", que pode ter várias causas (alérgica, infecciosa - bacteriana ou viral). Como teve febre, diagnosticou-se como infecciosa, e como os exames não acusaram bactéria, diz-se viral. No fim das contas, foi o diagnóstico padrão: virose. :)

Soraya 21 de setembro de 2009 22:31  

Apoiada companheira...
Corte o cordão umbilical pulsante das cesaristas...
Cruj Cruj Cruj Tchau!

Luciana 21 de setembro de 2009 22:38  

Nanda... Li tudo, sentindo tudo com você... cada dor das contracoes, cada alegria tambem por estar sentindo as contracoes, a frustração a cada toque e não ter dilatação nenhuma (apesar das contrações) e a indignacao de ter um cronometro na cabeça naquele momento em que tudo o que vc precisava (acredito eu) era de encorajamento.

Nanda, eu não sei se sua dilatacao evoluiria, se o Benjamin viraria... Mas EU acredito que temos o direito de tentar até não dar mais. Vc ja tinha chegado ate ali! Tb temos o direito de ter outras alternativas. Eu dilatei de 2 pra 6cm em pouquissimo tempo, e no final, o Nicolas tb nao virava, mas pelo menos tive outra alternativa que não a cesaria. Agora, imagina se meu medico tivesse me colocado um cronometro tb qdo eu estava estacionada nos 2cm? Nao sei, mas acho que seu medico nao tinha o direito de dizer que o Ben podia entrar em sofrimento em x horas e alarmar todos à sua volta... Eu fiquei indignada com isso.

Que pena que uma busca tao linda tenha terminado assim, ne? Mas vc é mulher de fibra e na proxima, com um PD, nao te pegam. Fiquei triste junto com vc, mas feliz de perceber que o movimento pro-parto natural no Brasil (Alagoas em especifico) podem contar com uma mulher tao forte e decidida!

Beijos,

Lu (indignada com o sistema medico no Brasil, mas admirada por sua luta).

MIL@ 22 de setembro de 2009 09:26  

Nanda,
te conheço faz um tempo , mas agora nesta fase nova é que realmente estreitamos as conversas.
Ainda não li teu relato, mas li outros de parto normas e minha mãe tem mais 18 relatos de parto normal só da minha avó.Além de dois dela própria.
Confesso que sempre foi um assunto que me colocou dúvidas. E na minha primeira gravidez que tive tantos problemas essa era a última coisa que eu pensava, só queria meu filho vivo o que não ocorreu. Inclusive ele nasceu de cesárea (e como não tinha como nem fazer indução)pois minha depressão por saber que ele não sobreviveria era muito grande e eu pedi pra que ela fosse feita .
Aliás esperei até onde aguentei para que ele tivesse todos os exames necessários para detecção de suas más formações.
Eu acredito sim que a cesárea agendada não seja a opção saudável para o nascimento do bebê e sim uma opção de emergência.Eu, por ser hipertensa já sei que ela pode acontecer com mais facilidade que com outras pessoas, mas não é minha primeira opção.
Minha mãe sofreu muito no meu nascimento e cresci com suas reclamações sobre o parto normal, no nascimento do meu irmão do meio disse ela que já foi melhor e o último ela foi até as 42 semanas , e foi uma cesárea emergencial. Ela sofreu horrores com uma infecção hospitalar.
Que acho é que cada caso é um caso. mas que o que vem primeiro é a saúde e bem estar da mami e do Baby.
Importante, confortante e especial é ler os relatos destas mães que vem aqui e os seus pois eu apesar de ter 31 anos sempre sou e serei aberta as opiniões , para que eu possa reformar as minhas..

Beijos no coração.. Ludy

MIL@ 22 de setembro de 2009 10:27  

P.S.: Li o Relato.Muito doído mesmo.Mas ainda acho que você no fundo sabe que fez todo melhor pelo seu Ben. Você é super guerreira. Te admiro.

Ainda estou a chorar ..

Anderson Santos 23 de setembro de 2009 14:04  

Como um dos poucos representantes, frequentes, do gênero humano naturalmente incapaz de gerar filhos que lê seu blog, a descrição sobre toda a situação realmente foi emocionante.

Concordo com a Shuellen,
"Acho que nem preciso dizer o quanto te admiro. Sempre soube que por trás destes cachinhos meigos e roupas rosas havia uma mulher forte, capaz de encarar as mais diversas facetas da vida."